Inacessibilidade da Escola Compromete Alfabetização na Manhiça

By Nabote Langa

O Distrito da Manhiça na Província de Maputo, extremo Sul de Moçambique está com uma taxa de analfabetismo que ronda entre os 25% e 30%. Um dos factores influenciadores apontados pelas Autoridades da Educação é a inacessibilidade da escola.

Os jovens e adultos estão num distrito rural, onde a principal actividade económica é a agricultura. Então, fazendo-se a agricultura no dia-a-dia, desde o amanhecer ao pôr-do-sol, os pais e encarregados de educação preferem mandar os filhos à escola e eles irem procurar fontes ou formas de alimentação daquelas crianças.

(Director do Serviço de Educação Juventude e Tecnologia (SDEJT) da Manhiça, Nuno Plácido)

Para Nuno Plácido, apesar desta cifra, a alfabetização é muito forte naquela região.

Estamos com turmas numerosas nas nossas escolas e nos nossos centros de alfabetização e isso faz com que diminua bastante o nível de analfabetismo a nível do nosso distrito.

O rácio professor aluno situa-se, entre os 55 a 60 alunos na vila, mas para as escolas do campo, os números diminuem de forma drástica para 25 a 30 e, noutros casos, 15 a 20, dependendo das zonas, revelou o titular da Educação no distrito.

Por exemplo, em Calanga, estamos com o rácio de 20 a 25 alunos, mas também existem zonas que estamos com 15 a 20. Estamos até em zonas que temos de fazer turmas mistas porque o rácio é mesmo muito baixo. Pode-se encontrar 10 alunos da segunda classe, mais 6, 7 ou 10 da quarta, juntas, numa turma mista.

Por outro lado, o absentismo escolar dos alunos durante o período lectivo, aliado às transferências arbitrárias, ainda que reduzido, preocupa o SDEJT da Manhiça e, Nuno Plácido esclarece como isso acontece.

Porque quando um aluno desiste da escola é o futuro do país que está em causa. Felizmente, na Manhiça não temos muitas desistências e o que acontece aqui é termos um pai ou encarregado de educação que acha que, por exemplo, um aluno do Posto Administrativo de Calanga não está a ser bem servido porque o posto é de difícil acesso e, ele acha que deve tirar o seu educando, por exemplo, para uma zona onde facilmente esse aluno tem a escola por perto. Então, na escola onde ele estava, considera-se desistido, ao passo que na escola onde ele vai, considera-se um novo ingresso. Mas o número de alunos no activo praticamente é o mesmo. E se nós fizermos um rastreio, perceberemos que aquele aluno não deixou de estudar, não desistiu, apenas não formalizou a transferência.

Entretanto, os adultos que participam no Programa Integrado têm demonstrado compromisso com a escola e o Director do SDEJT faz uma observação.

Os adultos são pessoas maravilhosas que sabem realmente o que querem e dificilmente eles desistem. Temos a particularidade de, até algum tempo, termos muitas mulheres e, se calhar, um ou dois ou mais homens por turma, ou nem existem homens nas turmas.

O novo programa baseado em metodologia IntraAct para alfabetização de crianças e adultos, o primeiro em Moçambique, já está a ser implementado na fase piloto e as expectativas são maiores.

É um projecto que traz robustez para poder ser implementado de forma clara em Moçambique. Eu estou para desafiar ali aos nossos representantes da DVV International para a necessidade de se moçambicanizar este projecto para que esteja realmente com muita coerência. Então, eu acredito que vai ser bom, teremos resultados extremamente positivos.

A Metodologia de origem alemã foi desenvolvida a partir de avanços da neurociência cognitiva, com o objectivo de facilitar e acelerar a aprendizagem da Leitura e da Escrita em crianças e adultos com necessidades educativas especiais (NEE), como explica a escritora Sadra Tamele, representante da Editora Trinta Zero Nove.

O papel das lideranças e da Comunidade para o sucesso escolar é crucial, diz Plácido.

O nível de satisfação é bastante positivo. Tendo em conta que estamos realmente a ver os frutos da Educação Integrada. Sabemos que a escola também funciona com as famílias e com toda a sociedade. A escola é da comunidade. E a escola é gerida, essencialmente, pela comunidade. Como sector de educação, estamos muito felizes, porque quase que todas as nossas escolas funcionam, ou têm a sua funcionalidade baseada naquilo que a comunidade quer. Têm os conselhos das escolas constituídos e estão a colaborar, de modo que todos os actores estejam envolvidos. Tanto as lideranças comunitárias e religiosas, as personalidades ou pessoas influentes, estão todos dentro daquilo que é o processo de ensino e aprendizado.

O Contributo da DVV International está a impactar na vida das comunidades

Em conversa com o Director Nuno Plácido, convidámo-lo a fazer uma breve avaliação sobre o papel da DVV International no Distrito da Manhiça, particularmente na Alfabetização de jovens e adultos.

Eu estou muito feliz com a organização, porque traz-nos realmente aquilo que é a realidade, como é que se deve trabalhar, principalmente para o ensino e para a educação de adultos. Estou fazendo uma avaliação muito positiva. A nossa alfabetização está realmente a funcionar bem. É impressionante como as mensagens são lidas pelos nossos alunos mais velhos, são coisas bonitas que eles fazem. Lêem mesmo de forma surpreendente, nós já fomos a algumas escolas, chegamos lá e encontramos os nossos educandos de idade um bocadinho avançada a pegarem o livro, ler e fazerem cálculos. Isso é uma maravilha.

Segundo o Director Nuno Plácido, a DVV International está a transformar as comunidades, mas pode fazer ainda mais.

Gostaríamos que a DVV International trouxesse-nos mais abordagens, mais oportunidades. Estamos felizes, mas queremos mais. Somos ambiciosos, não vamos esconder isso. Quando se trata de educação, temos que ser ambiciosos. Foram ambiciosos os nossos antecessores, para cuidarem de nós, para que também nós pudéssemos cuidar do país. Estamos abertos para que venham actuar, não só para a alfabetização de adultos, mas também no ensino primário e outros níveis subsequentes. E que nos tragam mais parceiros e firmem mais parcerias com os outros.

Várias organizações apoiam a Educação na Manhiça

Para além da DVV International que actua através dos seus parceiros de implementação do Programa Integrado de Alfabetização de Jovens e Adultos (PI) várias organizações trabalham no Distrito da Manhiça em prol da educação.

Temos a NADEC - Núcleo Académico para o Desenvolvimento da Comunidade, que actua, essencialmente, no Posto Administrativo 3 de Fevereiro, um bocadinho em Calanga e na Ilha Josina Machel. Temos a Good Neighbour, que actua na Ilha Josina Machel e no Posto Administrativo de Calanga, a Action Aid, também sediada no Posto Administrativo de 3 de Fevereiro, a Comunidade Mahometana, que também é um parceiro muito grande e ADPP Moçambique que actua em praticamente todo o distrito.

O número de parceiros é considerável, entretanto os desafios também se impõem e um deles é a falta de infraestruturas escolares que preocupam o SDEJT na Manhiça.

Nós temos crianças sentadas no chão. Temos cerca de 69 turmas de alunos que sentam no chão. Temos também algumas turmas de alfabetização sem espaço para estudar. Gostaríamos de ter os nossos parceiros a actuar em todas as áreas.

Programas de apoio à rapariga são também um desafio para Educação.

Por exemplo, dão uniformes, bicicletas e kits de higiene às mulheres. Mas a gente depois olha por aquele menino que também tem vontade de ir à escola e tem uma calça rasgada. Mas porque o projecto é mesmo só para o género feminino, estamos numa situação complicada, porque o rapaz corre mais o risco agora de desistir da escola por falta de apoio ou de incentivo.

Imagina num posto administrativo como Ilha Josina Machel. Uma menina vai à escola, tem um uniforme novo, também tem bicicleta. E na mesma casa vive um menino, está na mesma classe ou na mesma escola. Uma, duas horas antes ele pega o material dele, o caderno está na mão, a caneta com o risco de cair. A menina ainda está lá em casa, porque sabe que tem um meio que a leva à escola. No meio do percurso, a menina está a passar de bicicleta, bem vestida, com pasta e tal. Isso não porque foi dado pelo pai ou encarregado de educação, mas porque quem deu é o parceiro. Cria desmotivação. Então estamos a conversar com os nossos parceiros, para que também dediquem um bocadinho do seu tempo aos nossos meninos.

O Distrito da Manhiça situa-se no norte da Província de Maputo e faz limites com a Província de Gaza ao extremo Norte, Distrito de Marracuene ao Sul, a Este com o Oceano Índico e Oeste com os distritos de Magude e Moamba.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) 2019 - 2023 apontam que o Distrito da Manhiça tem uma população de 266.435 habitantes e a taxa de analfabetismo é 25,5%.